terça-feira, 16 de outubro de 2012

Primavenha






Conto primaveras...
Sim, esta, a quinta desde então.

Continuam todas revigorantes, cheias de verdes-claros, brotos, musguinhos...

 A chuva vem mansa, o cheiro da terra, quente e molhada, é quase sempre o mesmo, me carregando àquele tempo.

Se eu não a houvesse conhecido não buscaria seu perfume todos os anos. Era doce, mas suave, seu sol pintava na cara da gente um tom amarelado sem igual - mas, não queimava. Seu vento soprava os cabelos e desenhava com eles sobre o fundo do céu, abstrato. Eu, sentada com as pernas cruzadas, o peito palpitante, no rosto um sorriso infantil, podia acreditar que aquelas cigarras cantavam-me uma aria.

Mas (sempre há um "mas", será?)

Ainda nela, me foram arrancadas, dos olhos e da imensidão da alma, as mais doloridas lágrimas. Banhei-me toda de saudade, de falta, de ausência, de solidão. Não aceitava e não entendia. Eu e ela éramos. De lá para cá fui invernando-me, desertificando-me, como aquelas árvores que para aguentarem o frio deixam de ter folhas, ou como as cálidas do deserto que precisam de infinitos espinhos...

Era como se tudo o que eu havia me tornado, todas as flores que em mim floresciam tivessem que murchar antes da hora...

Conto primaveras, e há de ser então, que outra virá, ainda mais simples e sublime, me fará brotar a semente congelada, por seu brilho tênue, seu calor ameno, derretendo, sem ferver, o coração desacostumado.

Nascerá. Crescerá. Florescerá.

Não sentirei saudades desta vindoura porque levo a certeza de que me será perene.

N.




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