domingo, 29 de abril de 2012

Desalmado...




Uma gota de chuva sobre a pele,
um raio de sol como prisma nos olhos,
uma palavra perdida, um descompasso,
um dedilhado impreciso sobre o piano,
um nó preso na garganta,
um suspiro deixado no espaço,
uma paleta de cores cheia,
uma e outra volta no relógio...

Uma noite estrelada, um longo caminho,

um sopro da brisa, bem de mansinho,
uma vida inteira em um segundo,
uma rosa, seus espinhos, um mundo,
uma dor, um pranto, um riso.
Um engano, uma surpresa, um desencanto,
uma aurora, um abraço profundo,
uma afago, um apego, um estrago,
um silêncio acompanhado,
uma tese, uma lua, uma resposta,
um desastre, uma eterna pergunta,
uma cachoeira, um solavanco,
um olhar de mistérios cheio,
uma criança, um velho, um caduco,
uma onda lavando a areia,
uma nuca, uma boca,
uma voz rouca,
um barco em lentidão,
um arco-íris.

Isso não é poesia.

Enquanto não for de sangue fervente
as veias pulsantes, enquanto não
faça aos poucos mudança
nesse mundo de loucos,
onde todos tão cheios
levam almas vazias,
tudo isso, sem sustância

de amor
nunca será poesia.

N.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Pensiero..




Existe um mundo dentro de cada um, e por mais que sejamos turistas, mergulhadores, desbravadores de almas, nunca poderemos compreender em totalidade nenhuma. Por mais que entendamos alguns olhares, e que às vezes não seja necessária palavra alguma, nunca se terá a plenitude do pensamento alheio.  Ele, algo tão único, tão individual que chega a atormentar quem o tem.
Talvez seja esse medo, essa agonia, que nos faz externalizá-lo, como que se dividíssemos o peso de existirmos. E na soma dos nossos dias encontramos pessoas e lhes entregamos porções metafóricas da nossa alma e em troca levamos segredos e sonhos alheios. A vida se torna mais suportável aos poucos.
E seremos num futuro, tão cheios de retalhos, e talvez nos doa o desencontro daqueles que nos compunham com suas curiosidades, suas perguntas, seus sonhos, suas opiniões...  Porque na verdade somos feitos de fragmentos de mesclas de ideias, imagens, reflexões, coladas sobre o velho “eu”.
 Como se encontrássemos e levássemos pequenos espelhos atados ao corpo, e nunca nos víssemos por completo, mas que a cada nova pessoa, nova ocasião, descobríssemos em outrem nós mesmos.
Seguimos andando, pensando e talvez nunca saberemos ao certo quem fomos quando tudo termine.
Talvez tenha sido tão grande e nem saiba... Porque somos ainda aquilo que não falamos, que não escrevemos, que não mostramos, somados às sensações que causamos. 
Existe um mundo dentro de cada um e viajantes que não querem mais voltar. Existem muitos tempos ao mesmo tempo. 
Existe muito mais que razão nas essências dos pensamentos. 

N.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Sem palavras



Não me ame. Não, não me ame se for para ser assim, como tantos amores, desses de juras eternas, que com um suspiro se evaporam. Não me ame se tem medo de amar. Não me ame se o que quer é passar tempo, nem me ame para esquecer outro alguém. 
Nunca me ame com coerência, nem  me ame por etapas, pois sou o poço do imprevisível, sem começo, sem fim. E se o que quer é me amar, pois não pode ser assim, desse amor fugaz. Não me ame se o que quer é uma beleza incansável, eterna.
Não me ame se não pode ouvir a orquestra estrondosa e pacífica dentro de você. Não me ame se o que anseia é só o que pode ver, não me ame se não for amar a cada mudança diária, a cada marca na minha pele e na minha alma.

O amor ultrapassa os limites do plausível, no tempo, na distância, da dor, da dúvida, do medo. 

Não me ame se já pensar em um fim. Não me ame se não dormir e acordar pensando em mim. Não me ame se não se ama, mas não se ame tanto que não possa me amar. Não há quem suporte um egoísta, que encera seu orgulho todas as manhãs e ofusca a todos quantos o seu raio alcançar. Não me ame se não ama o próximo. 
Não me ame se em algum lugar do seu peito há uma nódoa de ódio, por quem quer que seja, não acredito que uma mesma fonte dê águas tão díspares. Não me ame se for para ter vergonha de mim.

 Jamais ame por pena.
 Não me ame por êxtase.

 E, se por acaso for para me amar, que não seja sua escolha, nem sua opção, mas que seja a única visão, a única saída, a única maneira. Se for para me amar que seja na totalidade, para o mundo ver que há paradoxalmente um amor permanente em realidade.
Se for para me amar, que me deixe sem palavras.




N.

O único








Se eu, deste mundo o último,
que do amor sente a fragrância,
e esperança extrai do mistério, 
cosendo o futuro hipotético
ao acre gosto do passado trágico,
que não se limita a pensamento sóbrio,
que caminha pelo labirinto do lírico,
em busca da desconhecida substância.

Se deveras conhecessem o implícito,
Sem da dor as máculas,
Sem das faces as máscaras,
Se ousassem um canto poético,
Se pousassem seu espírito
distantes da ignorância e da malícia...
Conheceriam a mim, tímido,
Grandioso, profundo e sábio.
Mestre dos momentos efêmeros,
marcados, porém, sem nódoa.

Mas, eles, persistem no mórbido
modo de viverem no árido,
abominam a inocência,
em tudo matemáticos,
são seres vivos cadavéricos,
em suas leis rígidos,
em normas sérios,
e por fim histéricos.

Não conhecem a fonte de êxtase
do amor como da rosa o símbolo,
fogem de si para o cárcere
da imagem que carregam mímicos,
se limitam a não serem ébrios
de paixão e de angústia,
não soam como música,
dizem que amam atônitos,
buscam provas pela ciência,
mas, não sentiram das pétalas
o cetim aveludado, o ápice,
são para o amor céticos. 

Se eu, deste mundo o único,
que faz da essência relevância,
broto em meio a miséria, 
na minha singular história,
nem pálido, nem gélido, 
mas cálido, frêmito,
vivaz em constância,
dessa vida que não é lógica,
senão nestes seres apáticos.

Contudo em meu âmago,
desse ser metamórfico,
haverá sempre uma ópera
que alcançará seu coração inóspito,
lhe fará desmanchar ávido,
como derretido pelo ácido,
num compasso mágico,
de amor, paixão e memória
cravados na dura existência,
onde o amor é a glória.

N.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Pouco...




Pausa. Respiração.  Nada mais repugnante que excessos. Desprender-se de algumas coisas diariamente seria a porção necessária para a leveza de alma que precisamos. Muita informação. Barulho. Movimentos. Sequências. Gentes.
O mundo como máquina caminha e tropeça nos próprios pés, vamos engolindo comidas e ideias – atordoados pela rotina hipnótica – as   mesmas sempre, para não perder tempo experimentando, ou por medo de estranhar.
Contemos-nos com uma felicidade enlatada, nos prendemos aos modos prontos de realização e fugimos do que realmente nos faz bem.
Vamos enchendo as sacolas, as tardes, as agendas, impensavelmente. E depois? A gente inventa que algo ainda está faltando. E como saco sem fundo perdemo-nos no desvario profundo.

Hoje eu só quero levar comigo o imprescindível.
 Paz, fé, amor.