quarta-feira, 18 de maio de 2011

Felicidades



Passo a passo, com a cabeça desvairando em infinitos pensamentos tropeça em uma lajota, na calçada por onde caminhava. Surpreendeu-a mais que o susto, o sono desse um senhor que ali dormia, suavemente, como se não houvesse ruído algum dessa inquietação cotidiana.

Ainda que rapidamente, pode observar que os pés do homem, calçados por uma sandália de couro muito frouxa, acomodava os variados calos e feridas, algumas sangrando. Tudo isso, em um simples retrato instantâneo, que em questão de segundos pintou-se na memória.

Foi rápido. Voltou rápido. Pelo mesmo caminho. Questão de minutos. De longe pode ver que o homem acordara, estava sentado, no mesmo lugar, olhando a tudo o que passava.

Para ela, não haveria senão desespero, ou medo, ou fome, ou dor, impresso naquele rosto. Mas ao aproximar-se, naqueles preocupados e apressados passos, o senhor lhe acenou e com um grande sorriso falou algo que ela não conseguiu compreender completamente. Mas sentiu-se feliz. Muito feliz. Estava agora mergulhada em infinitos pensamentos.

No antagônico tempo em que todos buscam a felicidade, sem sequer saber o que se quer. Não é que as feridas e o estômago do homem na calçada não doiam, nem sua história era sabida, mas naquele momento, talvez impensada sua ação, fê-la acordar para aquele dia em que não sabia que a felicidade é dom, é maneira de ver, é o modo em que se é. E ainda quando não tiver nada, a sua vida ainda lhe será o mais maravilhoso presente de Deus. E quando se for, para sempre, quando a vida se consumir ficarão marcas eternas, no chão por onde caminhou, onde suas mãos trabalhou, eternizando-se em infinitas mentes, em infinitas artes.

Felicidade não é concreta. Felicidade não se vê só pelos olhos. Felicidade é êxtase de almas, é um abrupto som, é o climax, felicidade é transformar-se, é adaptar-se. Felicidade não precisa ser enlatada, é e pronto. Mas, está enganado quem acredita encontrá-la fora de si.

E no emaranhado de seus "eus"encontrou a felicidade. Na gratidão a Deus pela vida, pela possibilidade de estar aqui, afinal, sua existência nunca foi, nem será em vão.

Intensifique-se, deslumbre-se, exista de verdade, marque, embora que, temporariamente.

(Noemi C. Prado)

Fotografia - El sueño - Acervo próprio. Retratada em Assunção, PY em 2008

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